Wednesday, February 15, 2006

Aborto elétrico

O céu é o limite
Edição de março, 2000 - Terceira parte
de Carlos Marcelo

``Eu acho que a gente nunca vai chegar ao ponto de ser a banda mais popular do Brasil, principalmente pelo que a gente fala .´´ Renato Russo, 17/11/1985
Renato Russo gostava de fazer mapa astral dos amigos e consultava regularmente o I-Ching, mas quem tinha o Dom de adivinhar o futuro na Legião Urbana era o baterista da banda, Marcelo Bonfá. ``A gente vai se mudar para o Rio e eu vou ser muito famoso´´, anunciou à uma amiga, Ana Rezende, durante festa em 1982, três anos antes do lançamento do primeiro disco. Depois que o Paralamas fez sucesso com Óculos e se tornou o primeiro artista nacional a gravar uma composição de Renato Russo (Química, no disco O Passo Do Lui), havia uma crescente curiosidade sobre o rock politizado e contestatório que estava sendo produzido na capital federal, bem diferente das batatinhas fritas consumidas pelos fãs da Blitz, febre do verão de 1983. A mudança das bandas brasilienses para as metrópoles culturais era apenas uma questão de tempo.
``O rock de Brasília chegou a São Paulo em 1984 como um movimento ´´
, lembra o guitarrista Edgar Scandurra. ``Primeiro, foram os Paralamas, que para nós, era uma banda formada por pessoas de Brasília que moravam no Rio. Depois, veio a cara definitiva com Legião, Plebe e Capital´´, acrescenta Scandurra. ``E engraçado que, nos shows em lugares pequenos como o Napalm e o Rose Bom Bom, eles começavam todos do mesmo jeito: boa noite, nós somos a Legião Urbana de Brasília, ou a Plebe Rude de Brasília, ou o Capital Inicial de Brasília. Só mudava o nome da banda´´ , repara o guitarrista do Ira!, na época também baterista das Mercenárias. ``Rolou uma identificação legal, porque nós tínhamos referencias parecidas. Eles também receberam influencias do punk e do pós-punk inglês em primeiro lugar: Cure, Jam, Gang of Four... Ao contrário do pessoal do Rio, que seguia mais numa praia de hard rock´´, compara.
COMO SE FOSSE NOVA YORK A atração dos paulistas pelos brasilienses foi plenamente correspondida. ``Eu achava Brasília chata, tediosa, modorrenta. Fiquei embasbacado com São Paulo´´, reconhece o vocalista Dinho Ouro Preto, o primeiro do Capital a se mudar da capital e fazer amizade com figuras da cena paulista, como Guilherme Isnard, do Zero. ``Era um choque: como se a gente tivesse chegado em Nova York´´, reforça o baterista da Legião, Marcelo Bonfá, lembrando também a dureza dos primeiros shows. ``A gente era meio maluco. Pegava prato emprestado com Edgar Scandurra, passava na casa do Ricardo do Fellini para pegar uma caixa... andava São Paulo inteira de ônibus para montar a bateria´´.
As viagens começaram a ficar mais longas porque passaram a incluir uma segunda etapa: a lona do Circo Voador, no Rio de Janeiro. Por ``culpa´´ da Fluminense FM, músicas como A Dança do Semáforo (Plebe), Descendo o Rio Nilo (Capital) e Geração Coca-Cola (Legião) tinham se tornado hits e os cariocas queriam ver ao vivo aquela nova onda de roqueiros surgida no Planalto Central. Com o apadrinhamento dos Paralamas, a Legião foi convidada a gravar um compacto no Rio pela Emi Odeon. Mas no início não deu certo.
``Aconteceu um ruído de comunicação entre a banda e a companhia: eles não souberam dizer exatamente o que eles queriam da gente e a gente também não se colocou de forma clara. Depois de gravar três ou quatro músicas com produção do Marcelo Sussekind (produtor de hits como Amante Profissional, do Herva Doce) nós acabamos voltando para Brasília´´, narra Dado Villa-Lobos. O guitarrista lembra que a gravadora esperava da Legião algo meio country-pop, na linha de Bob Seger (cantor americano que vendeu milhões de discos nas décadas de 70 e 80): ``Aí a gente falou:, não, assim a gente não fica.´´
MAYRTON, ALGUÉM COM QUEM CONVERSAR Nesse meio tempo, entre a decisão de ir embora e pegar o ônibus de volta para Brasília, a Legião encontrou dentro da Odeon alguém com quem conversar, alguém que depois se tornaria praticamente um quinto integrante do grupo. O niteroiense Mayrton Bahia, produtor contratado da gravadora para cuidar de lançamentos na área pop-rock-mpb, tinha no currículo trabalho artistas tão diversos como Elis Regina, 14 Bis, Djavan e Wagner Tiso. Gerente de elenco da gravadora, Mayrton teve uma longa conversa com os legionários na linha como-sobreviver-e-manter-a-integridade-dentro-de-uma-gravadora. Foi uma noite inteira de bate-papo e deu certo. ``Nunca vi a Legião como um grupo musicalmente limitado, pelo contrário, eles tinham uma linguagem própria que muitas vezes não era compreendida. O desafio era entender a estética da banda, que estava muito mais para Van Gogh do que para Leonardo da Vinci´´, compara. ``A banda era um casamento e o Mayrton passou a fazer parte dessa família´´, resume Marcelo Bonfá.
Mayrton assumiu a direção de produção do primeiro álbum. O jornalista José Emilio Rondeau, indicado por Renato, ficou com a produção-executiva. Assim, em abril de 1984, com Brasília em estado de emergência por conta da votação das emendas das Diretas-Já, cheia de tanques e militares nas ruas, a Legião deixa a cidade. ``Foi uma imagem impressionante: Brasília sitiada e nós, indo embora´´, recorda Dado. Praticamente na mesma época o Capital também deixa a capital e assina contrato com a CBS (atual Sony Music) para lançamento de um compacto com duas músicas: Descendo o Rio Nilo e Leve Desespero. Ambas são bem recebidas pela crítica, chegam a tocar nas rádios, garantem os primeiros shows em cidades como Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre, mas não estouram nacionalmente como as outras bandas ``de rock´´ da gravadora, RPM e Metrô.
Enquanto isso, no Rio, a Legião passou um tempo hospedada na casa de Bi Ribeiro, dos Paralamas, até se mudar para um hotel em Copacabana. Apesar de o repertório da estréia em vinil estar praticamente definido antes do início das gravações (a única música feita em estúdio foi Por Enquanto, nascida de uma experimentação de Renato utilizando uma bateria eletrônica), as sessões não foram exatamente sinônimo de tranqüilidade. Bonfá e o produtor, por exemplo, viviam as turras. ``Durante Ainda é Cedo, eu tive um contratempo que o Zé Emílio virou para o Renato e disse: `Juninho, não dá`´. E aí o Renato teve que sair do estúdio pra convencer o José Emilio a voltar. Depois, olhou pra mim como quem dizia: se esse cara for embora, a gente está fudido´´, revela o baterista.
No final, mais um problema. A primeira prensagem do disco foi um desastre.``O som ficou sem peso, deformado. Fiquei desesperado, porque eu tinha assumido compromisso com a banda de garantir que a linguagem deles seria respeitada pela gravadora. Mandei refazer o corte do acetato e garanti que ninguém iria meter a mão para mudar nada´´, lembra Mayrton Bahia, que ganhou nesse episódio a confiança definitiva dos membros da Legião. O álbum, batizado apenas com o nome da banda, sai em janeiro de 1985 e vende 80 mil cópias, número que surpreendeu até a gravadora.
A TRIPLA REJEIÇÃO Em São Paulo, o Capital Inicial enfrentava sérios dissabores no início da relação com a indústria fonográfica. As músicas que apresentavam para o primeiro disco - entre elas Fátima, Veraneio Vascaína e Psicopata - eram rejeitadas pela gravadora, que pedia algo mais comercial. Depois de ter o repertório recusado três vezes, a banda opta por rescindir o contrato e assina com a PolyGram para o lançamento do primeiro disco, o que ocorre em 1986. O LP surpreende os antigos fãs pela inclusão de teclados e naipes de metais nos arranjos, iniciando a guinada do Capital em direção ao pop. O sucesso vem rápido (200 mil cópias vendidas em apenas três meses) graças a uma composição dos tempos do Aborto Elétrico. Música Urbana, uma das canções recusadas pela CBS, é o primeiro grande hit nacional do rock brasiliense. Dinho, o vocalista, ganha status de sex-symbol e o grupo ganha um quinto integrante, o tecladista Bozo Barreti, que tocava com Arrigo Barnabé e era formado em regência pela USP.
No Rio, a Legião já não era mais a representante solitária dos brasilienses. Em 1986, a Plebe Rude consegue contrato com a Odeon para gravar O Concreto Já Rachou, mini-LP com sete músicas matadoras produzidas por Herbert Vianna. ``O Herbert introduziu o estúdio para a gente, mas praticamente não mudou nada dos arranjos originais´´, conta Philippe Seabra. ``Foi ele que deu algumas idéias brilhantes, como utilizar um violoncelo na introdução de Até Quando Esperar ´´, lembra o vocalista e guitarrista.
O CHORO DOS MARMANJOS A Legião, por sua vez, começa a trilhar caminho próprio e se distanciar de seus companheiros de Brasília e do rock-Brasil. Lota por duas noites o Morro da Urca no lançamento do primeiro disco e faz o circuito de danceterias da moda, ``todas com M no início do nome´´, como lembra Dado Villa-Lobos: Mamão Com Açúcar, Metrópole, Mamute, Manhattan... Vocalista do Biquini Cavadão, Bruno Gouveia lembra o momento exato quando percebeu que a Legião seria uma mega-banda: `` Foi no Circo Voador, no fim de 1985. Tinha gente até o teto. Eu estava assistindo no palco e não acreditava no que via. Eram marmanjos na primeira fila chorando copiosamente em Soldados, cantando Petróleo do Futuro em altos brados, enquanto Renato pedia atenção para tocar a inédita Tempo Perdido´´, descreve Bruno, que chegou a gravar uma música do Biquini dividindo os vocais com Renato: Múmias, do LP Cidades em Torrente.
Definida com propriedade pelo antropólogo Hermano Vianna no texto da caixa Por Enquanto: 1984/1995 como ``um dos momentos mais lindamente melancólicos da história da música pop´´, Tempo Perdido acabou sendo escolhida como primeiro single do segundo disco da Legião. Lançado em julho de 1986, Dois - que ia ser um álbum duplo com o pomposo nome de Mitologia & Intuição - representou uma guinada em direção ao intimismo e acertou em cheio o coração de milhares de jovens brasileiros. No repertório, canções que Renato resgatou dos tempos de Trovador Solitário - como Música Urbana 2 e Eduardo e Mônica - e outras nascidas em estúdio, a exemplo de Índios e Acrilic on Canvas. `` As músicas são lindas, mas foi uma fase difícil de criação, era muito experimental´´, avalia Marcelo Bonfá.
Mayrton Bahia, uma das poucas pessoas que acompanhavam de perto todas as etapas do método de trabalho da Legião, descreve o processo criativo do grupo como ``muito particular ´´ . `` Primeiro eles faziam uma levada musical, uma base instrumental em cima do que eles queriam fazer, uma música mais rápida, outra mais lenta... Depois o Renato ouvia aquele instrumental e imaginava que tipo de texto ele gostaria de falar com aquele som. Aí ele fazia as letras livremente, sem melodia, sem métrica definida. Depois ia para o estúdio tentando cantar aquela letra em cima daquela base, aí surgiam melodias originais da Legião. Índios é um exemplo típico desse método ´´, revela o produtor.
ABRINDO O BAÚ Com agenda lotada de shows e a mudança em definitivo para o Rio, tanto Plebe Rude como Legião não encontravam tempo para ensaiar, muito menos para compor. Resolveram, então, abrir o baú brasiliense e de lá desenterraram a maior parte do repertório dos discos Nunca Fomos Tão Brasileiros e Que Pais É Este 1978/1987. A trajetória das duas bandas, que até então se confundia, se separou de vez. Apesar do relativo sucesso da faixa-título e da balada A Ida, Nunca Fomos... (também produzido por Herbert Vianna) não repetiu o impacto de O Concreto Já Rachou. Nem a mídia gratuita obtida com a censura da música Censura (Unidade Repressora Oficial) ajudou a Plebe a conseguir o segundo disco de ouro.
Já "Que País é Este" foi o passo definitivo da Legião rumo ao mega estrelato. Os fãs da banda não cabiam mais em casas noturnas, muito menos em danceterias (formato já em declínio por volta de 1987). Apenas os ginásios de esportes comportavam o público de meninos e meninas que berravam os quilométricos versos de Faroeste Caboclo (``sempre sonhei em fazer uma música longa e com historinha, como Hurricane, de Bob Dylan´´, dizia Renato). Em algumas cidades como Brasília, mesmo o ginásio local - com capacidade para 20 mil espectadores - tinha se tornado pequeno e a única alternativa era o estádio Mané Garrincha, onde cabiam 40 mil pessoas e que acabou se tornando o palco em 1988 do mais acidentado show da carreira do grupo.
Depois dos problemas em Brasília e em outras cidades durante a turnê de lançamento de "Que País É Este", a Legião decidiu deixar o passado punk definitivamente para trás. ``A idéia era dar um basta na coisa visceral, dar uma escapada daquele universo que despertava energia negativa´´ , conta o guitarrista Dado Villa-Lobos. Começava a prolongada e difícil gestação de As Quatro Estações, que demorou um ano para nascer por conta de vários contratempos, da saída do baixista Renato Rocha (`` ele pediu para sair a partir do momento em que foi morar numa fazenda e não aparecia mais nas gravações´´, lembra Dado) até a falta de inspiração (daí o desabafo - Existem Canções! - no final do texto do encarte) de Renato Russo na hora de escrever as letras, que até passou uma temporada de dois meses em Curitiba em busca de idéias, sem muito êxito.
RELIGIÃO URBANA Três músicas de As Quatro Estações foram particularmente difíceis de serem finalizadas: Monte Castelo, Pais e Filhos e Eu Era Um Lobisomem Juvenil. ``Essas só ganharam a versão definitiva na hora da mixagem´´, revela Mayrton Bahia. Tanto trabalho valeu a pena: apesar de recebido com certa frieza pela crítica, que acusou a banda de descambar para o populismo messiânico, As Quatro Estações se tornou o mais bem-sucedido álbum da história do grupo: dois milhões de cópias vendidas até o final de 1999. Encerrando o disco com um trecho da liturgia católica (``cordeiro de deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós e dai-nos a paz...´´, últimos versos de Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar), a banda alcança o status de Religião Urbana. Enquanto a Legião chegava ao topo do rock-Brasil, os amigos brasilienses desciam ladeira abaixo. O terceiro e último disco da Plebe Rude pela Odeon foi uma despedida melancólica. Sem a produção de Herbert Vianna (``ele fez muita falta, estávamos em crise criativa, sem direção´´, reconhece Philippe Seabra), o grupo sequer conseguiu definir um nome para o LP, que acabou saindo com o nada original título de... Plebe Rude.
POP DE PLÁSTICO Em São Paulo, o Capital ia de mal a pior: as experiências mal-sucedidas de Dinho e Bozo Barreti com o tecnopop no disco Você Não Precisa Entender soterraram de vez a pouca credibilidade que o grupo ainda tinha. ``Estávamos fazendo um pop de plástico´´, define o baterista, Fê Lemos. A Segunda geração do rock-Brasília dos anos 80, formada por Finis Africae, Arte No Escuro e Detrito Federal, até que tenta surfar na mesma onda dos pioneiros candangos, mas acaba morrendo nas praias cariocas: nenhum deles passou do primeiro disco. Rapidamente, todos são despachados de volta para o Planalto Central.
Na virada para os anos 90, o cenário é pouco animador para o rock brasiliense. A Plebe Rude se dissolve com a saída de Jander Ameba Bilaphra e do baterista Gutje Woortman. André e Philippe tentam continuar como dupla e lançam o álbum Mais Raiva do Que Medo (1993), com pouca repercussão. Decidem parar em 1994. André passa em concurso público para o Banco Central e volta a morar em Brasília. Philippe aproveita a cidadania americana e se muda para Nova York, onde monta o projeto Daybreak Gentlemen, cantando e compondo em inglês.
O Capital também passa por maus momentos: o disco Todos os Lados (1989) tem apenas um hit que, por ironia, é uma composição de Renato Russo, Belos e Malditos, feita em parceria com o carioca Alvin L. (Sex Beatles). Com Eletricidade (1991), primeiro e último disco pela BMG, a banda diminui a participação do teclado nos arranjos e privilegia os violões, mas não adianta muita coisa. O disco vende apenas 30 mil cópias e as brigas internas tornam-se mais freqüentes, culminando com a saída do tecladista Bozo Barreti em 1992. Sem comunicar aos demais integrantes da banda, Dinho anuncia nos jornais que vai gravar um disco solo e, com ironia, sugere a Fê que o grupo vire um Deep Purple, conhecido pelas mudanças constantes de vocalista. ``Eu não conseguia ver personalidade própria para o Capital ´´, reconhece Dinho. ``Nós estávamos sempre atrás da Legião, éramos `a outra banda de Brasília´´´ , constata o vocalista.
LONGO, TRISTE E BELO Alheia ao naufrágio dos colegas candangos, a Legião reduzia a velocidade (os shows passam a ser ainda mais esporádicos) e as aparições públicas. Mas o trio continuava navegando com segurança em mar revolto pelo desemprego e recessão trazidos pelo Plano Collor. Inspirado pela música medieval, lança em dezembro de 1991 o seu disco mais consistente: V, recheado de músicas longas, tristes e belas, como Teatro dos Vampiros, A Montanha Mágica e Vento no Litoral. ``Ia ser uma mistura de Joy Division com o Cure da fase Pornography: o disco inteiro contando uma história de amor sobre um casal que briga, se separa e depois volta´´, contou na época Renato Russo, que tinha voltado a beber e enfrentava seguidas crises de depressão causada pela desilusão trazida pelo namorado americano, Robert Scott, que passou dois anos com o cantor. ``A partir do V, o Renato se descobriu soropositivo e as coisas passaram a ser feitas com mais cautela´´, revela Dado Villa-Lobos.
A gravação do Acústico MTV em 1992 foi opção para fugir da obrigação de gravar videoclipes para o novo disco, rotina considerada estressante pela banda e só retomada em 1994 para Perfeição, o primeiro single do disco O Descobrimento do Brasil. Com letras simples e diretas, O Descobrimento... rendeu a última turnê da Legião, iniciada em Valinhos e encerrada também no estado paulista, com show em Santos.
Era a despedida dos palcos e o fim também de uma relação conflituosa. `` Os shows da Legião sempre foram uma explosão. Às vezes de alegria, outras de tristeza e melancolia´´, relembra o guitarrista. Dado Villa-Lobos montou com André Mueller o selo Rock It! para gravar novos artistas e por ele lançou várias bandas novas, entre elas grupos cariocas (Second Come, Sex Beatles, Gangrena Gasosa) e brasilienses (Low Dream, Dungeon). Com a experiência acumulada na Rock It!, topou o desafio proposto por Renato: produzir o penúltimo disco da Legião: A Tempestade ou O Livro dos Dias. ``A verdade é que não tinha muita gente para fazer esse trabalho: a gente não poderia lidar com um Liminha, porque nossa forma de trabalhar em estúdio era muito particular, muito íntima ´´, explica o guitarrista, que não gostou de acumular as funções: ``Quase morri de tanto trabalhar´´. Comprometido pelo estágio avançado da doença de Renato, A Tempestade... (1996) é item menor na discografia da Legião, apesar de conter alguns esparsos momentos de brilho como as faixas L´Aventura, Esperando Por Mim e a faixa-título.
CARRASCO E SALVADOR Em 11 de outubro de 1996, morre aos 36 anos não o Renato Russo, mas seu criador: o Júnior, filho do Seu Renato e Dona Carminha, menino carioca que foi morar em Brasília aos 13 anos e lá, imerso na solidão do concreto cercado de cerrado por todos os lados, inventou um personagem a sua imagem e semelhança para atrair amigos e, com eles, mudar a história do rock brasileiro. ``Renato foi, ao mesmo tempo, nosso carrasco e salvador. Sua sombra era muito opressora: só a morte dele libertou a gente´´, acredita Dinho Ouro Preto. Ao som de Fantasia Opus 17, sonata para piano de Schumman, as cinzas do corpo de Renato Manfredini Júnior foram espalhadas em canteiros de bromélias da casa principal do Sítio Roberto Burle Marx, na Barra de Guaratiba, zona oeste do Rio. ``Agora o Renato Russo é só do público, o Manfredini é nosso´´, sentenciou Dona Carminha, mãe do cantor.
O apelo da mãe de Renato não surtiu efeito. O culto ao cantor, iniciado logo após sua morte, cresce a cada dia, mesmo com a resistência dos amigos e da família. ``Os fãs pedem palhetas, óculos, roupas, fotografias.. qualquer objeto que tenha pertencido ao Júnior. Alguns não tem o mínimo desconfiômetro e pedem até um pedacinho do lençol que ele usava´´, conta dona Carminha, que decidiu apoiar a criação de um memorial para diminuir o assédio pessoal que a obrigou inclusive a trocar de apartamento em Brasília.
O culto também cresceu com o lançamento de Uma Outra Estação, o derradeiro disco de estúdio da Legião. Incluindo canções excluídas de A Tempestade..., o disco tem várias homenagens explícitas na terra onde tudo começou: da capa, um desenho de uma superquadra, até a última faixa, Nossa Senhora do Cerrado, regravação de música de um grupo brasiliense chamado Liga Tripa. ``Não foi coincidência. É para mostrar que nossa história começa e termina em Brasília´´, explica Dado Villa-Lobos.
``Essa é uma história feita de fracassos e glórias. Todos saíram com alguma cicatriz, mas todos saíram definitivamente mudados´´, acrescenta Dinho Ouro Preto, que voltou a cantar no Capital Inicial e prepara um livro sobre a turma da Colina. Seu companheiro de banda, Fê Lemos, anda interessado na música feita no computador, ``o mais democrático dos instrumentos musicais ´´. Sem largar o Capital, o baterista pretende deixar São Paulo no próximo ano para seguir os passos do guitarrista Loro Jones e do amigo André Mueller: voltar a viver na cidade onde formou a primeira banda punk da capital federal. `` É hora de um novo começo e aproveitar que Brasília é pródiga em gente original para, quem sabe, montar o Aborto Eletrônico´´, afirma o único sobrevivente da formação original do Aborto Elétrico. Carregado de lembranças e histórias, o rock-Brasília está indo de volta para casa.
FIM

2 Comments:

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11:01 AM  
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